é favor seguir naquela direcção

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Quantas vidas tem a vida e as vezes suspiradas por não mudar. Se vou para a frente, olho para trás. Se sigo às arrecuas fadigo o pescoço.
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A minha vida é tão complexa e simples como qualquer. Aborrece-me tanto a tepidez da banalidade, ser uma coisa do meio, cinzento numa multidão de cinzas, em desejo e repúdio de ter cor.
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Se contasse tudo o que sei, ficariam sabendo menos do que o menos do que o tudo que conheço. Não digo tudo, por impossibilidade, temor de pudor e vergonha de elogio. O que tenho para contar… posso espalhar o currículo profissional e alinhar gostos, desgostos, tendências, mas ninguém me virá buscar ou chegar para ouvir.
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Do quarto negro e do encarnado, desmaiei e caí sobro o rubro. Acreditei-me morto aí e fantasma no outro. Errei, porque erro muitas vezes e porque há retornos, se não eternos, persistentes.
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Foi um afrontamento, um sufoco agradável como o começo duma brisa quente que abandonou o Saara e chegou. Acreditei e na alegria de ter um telhado para me cobrir todo, não como as mantas, que sempre deixam a cabeça de fora, fechei as portas e portadas da sala encarnada.
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Como um maluco, um doido simpático a quem paternalmente se dão cigarros e conselhos para deixar de fumar, contei quase tudo. Contei como se fosse voar, por isso desmaiei.
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E quantas vidas tem a vida e quantas vezes me volta a sina. Alguma coisa tem de mudar para que não tenha desmaiado em vão. Quantas vidas tem a vida.
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Ressuscitado do tempo de fingir, a ressurreição. Roxo como o vinho, roxo como quando a pele é janela sobre a dor derramada.
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Dizem que as mulheres mudam de penteado quando querem refazer parte da vida. Não sei, não me lembro.
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Mudei a cor e até o nome, porque uma quase-vida quase-nova é razão para chamamento diferente. Ilusões e estorietas para entreter.
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Arredei móveis e aspirei, reli títulos, inalei pó e afligi-me nas vistas, joguei fora alguns passados inúteis, rasguei passados despropositados e quase chorei. Ensaiei novas disposições, quando as dores nas costas, a sede desértica, o cansaço sem regresso e o odor insuportável do meu suor mostrava o prazer futuro do duche.
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Quantas vidas. A mesma. Quantas mesmas. Mudei, mas moro no mesmo sítio. Não consigo ir longe, de qualquer modo e sentido.
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Só para calar uma inquietante ilusão, criei este blogue. Vive na rua com o nome do outro e ensina os passos para a casa antiga, a de quase sempre.
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Nota 1: Trecho do filme «O Pátio das Cantigas», de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), rodado em 1942.
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Nota 2: Quadro títulado de «Uvas», pintura de Juan Gris, datada de 1913.
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